Em cada um de nós, há um elo invisível que nos conecta ao passado, a quem veio antes. Para mim, esse elo sempre foi um sussurro, um pensamento, uma memória da minha avó, uma senhora de vida sofrida, mas de uma dignidade imensa, que, apesar de introspectiva, carregava a palavra "ucraína" como um brasão no coração. Sempre me lembro dela e de nossas tardes, nas quais ela me ensinava canções, brincadeiras, parlendas. Lembro-me bem de uma de nossas tardes de conversa, ela sentada em sua cama, falara que era "Ucraina", e eu criança, pensava: "Será que é ucraína mesmo? Não é ucraniana?" Enfim, sempre gostei de ouvir suas histórias, ver os poucos documentos que ela tinha e cresci tentando decifrar esse sussurro, vasculhando livros numa época em que a informação era um tesouro raro. Um alento para minha curiosidade era assistir ao Programa Origens, que passava aos domingos e por tantas vezes mostrava apresentações de grupos folclóricos e até viagens à Ucrânia.
A chama ancestral, que sempre ardeu em mim, se tornou um incêndio quando assisti ao Festival Folclórico pela primeira vez. Minha avó não estava mais conosco e aos vinte e poucos anos de idade, assisti a apresentação do Grupo Folclorico Ucraniano Barvinok aos prantos. As lágrimas que rolaram não eram de tristeza, mas de um reconhecimento profundo, de uma alma encontrando sua casa. Após o espetáculo tentei me juntar a um grupo folclórico, mas não foi possível. No entanto, essa paixão, que ficou adormecida por um tempo, explodiu em realização aos 40, quando finalmente pisei no palco do Grupo Folclórico Ucraniano Poltava, juntamente com minha mãe.
Foi em uma viagem, entre a música e a dança, que percebi um vazio. Buscava algo que pudesse vestir, um símbolo visível do meu pertencimento, que gritasse "Eu sou ucraniana!". Foi nesse momento que A Folclorika nasceu: da necessidade, da paixão e da convicção de que eu poderia criar peças que contassem histórias, que carregassem a emoção e o orgulho que transbordavam em mim.
Em 08 de Agosto de 2023 iniciamos a criação das primeiras estampas, as pesquisas de insumos, tipos de estampas e muito aprendizado. Em outubro as primeiras camisetas começaram a circular e em dezembro a nossa primeira feira de artesanato no Ukra Bar!
Cada camiseta da A Folclorika é mais do que tecido e estampa. É um portal. É a chance de me sentir mais perto da Ucrânia, de sentir o orgulho de exibir minhas raízes, de explicar a riqueza de cada símbolo quando alguém pergunta. É, acima de tudo, um MANIFESTO! Especialmente agora, enquanto a Ucrânia enfrenta uma agressão devastadora, não podemos permitir que a história, a identidade e a dignidade do povo sejam apagadas. Os agressores têm destruído vidas, casas, memórias e histórias, baseando-se em mentiras sobre a Ucrânia. Precisamos nos unir, nos reconhecer e mostrar ao mundo que a história ucraniana é milenar, rica e singular!
Cada peça da A Folclorika é um abraço à Terra dos nossos antepassados, um grito de apoio, um lembrete de que a história e a cultura ucraniana são vivas e resistem.
Minha paixão pelo folclore se traduz em pesquisas para garantir que cada estampa seja fidedigna à tradição, com um toque de ousadia, de trazer um toque contemporâneo que a torne relevante para os dias de hoje. É um equilíbrio delicado, feito com emoção, com sentimento, com cuidado. E essa dedicação se reflete na qualidade de cada peça: algodão premium, costura reforçada, um produto que honra a tradição em cada detalhe.
Houve medos, sim. A introspecção, o receio de errar na tradução de um símbolo, a cautela de quem não é "parte" nos círculos ucranianos mais tradicionais, mas a força de um propósito maior, o desejo de manter viva essa herança e o apoio da família e dos meus amigos de grupo, superou qualquer receio e me fez encarar esse desafio.
A mensagem mais importante da A Folclorika é "Não podemos nos esquecer." Não podemos esquecer o que nossos antepassados viveram e o que sofreram para que estivéssemos aqui, não podemos nos esquecer de seus ensinaments, de como fizeram florescer sua cultura em terras distantes, mesmo diante de tantes adversidades. A força e a resiliência dos ucranianos da diáspora que vieram para o Brasil são um testemunho vivo. Precisamos preservar esses costumes, essas histórias, principalmente agora, enquanto a propaganda russa tenta apagar nossa nação e nossa herança, cada estampa que criamos, cada símbolo que exibimos com orgulho, é um ato de RESISTÊNCIA, de UNIÃO e de AFIRMAÇÃO de uma identidade milenar!
Sonho que a A Folclorika se torne um farol, com uma variedade imensa de estampas e produtos, reconhecida por todos que admiram essa cultura vibrante. Sonho em poder ajudar, lançando campanhas que unam as pessoas em prol da Ucrânia, movendo montanhas de solidariedade!
Convido você, que tem raízes ucranianas ou que simplesmente admira a força e a beleza desse povo, a vestir essa história. A Folclorika convida você a manter a história viva, a vestir um símbolo de orgulho e esperança. Junte-se a nós nesta jornada.
Eu sou Glauciane, idealizadora da A Folclorika, filha de Celia Regina da Cunha, neta de Ana Mazepa da Cunha, bisneta de João Mazepa e Catarina Surek Mazepa, tataraneta de Estefano e Catarina Mazepa e de Gregório e Anastácia Surek!